Mitos sobre o setor produtivo de plantas nativas: a Nativas Brasil te responde!

Apesar de reconhecidas por seu valor ambiental, plantas nativas ainda são cercadas por mitos no âmbito do setor produtivo brasileiro. Essas narrativas influenciam decisões econômicas e operacionais. Este artigo analisa esses equívocos com base em dados técnicos, econômicos e produtivos, discutindo como a desinformação impacta o planejamento, a eficiência e o desenvolvimento do setor produtivo de espécies nativas no Brasil.

O que é o setor produtivo?

O setor produtivo brasileiro é uma área da economia dedicada à produção de bens e serviços. No geral, o setor produtivo é dividido em três categorias:

  1. Setor primário, relacionado à extração de recursos naturais (agricultura, pecuária, pesca e garimpo);
  2. Setor secundário, abrangendo as atividades industriais e de transformação, incluindo energia e mineração;
  3. Setor terciário, que trata da prestação de serviços como comércio, educação, saúde, tecnologia, turismo, entre outros.

Dentre a importância do setor produtivo, podemos destacar sua participação no Produto Interno Bruto (PIB). No ano de 2024, a indústria brasileira representou 24,7% do PIB do país, segundo dados do Portal Perfil da Indústria Brasileira.

Por ser a principal impulsionadora de tecnologia, desenvolvimento e inovação, a indústria também fornece insumos para outros setores, o que aumenta a competitividade do Brasil no mercado mundial com o passar dos anos.

Com isso, a tecnologia no campo mudou o status do Brasil de país importador de alimentos para um dos maiores exportadores globais, com a agricultura de alta eficiência representando quase metade das exportações totais. Conheça a Trajetória da Agricultura Brasileira (Embrapa).

Além disso, o setor produtivo possui uma gigantesca contribuição na geração de empregos e rendas. A indústria brasileira criou 910,9 mil vagas de emprego no acumulado de 2019 a 2023, a partir de dados do IBGE. Isso representa crescimento de 12% no número de postos de trabalho e fez o setor alcançar o total de 8,5 milhões de pessoas ocupadas em 376,7 mil empresas. Todos esses dados foram divulgados pela Agência Brasil.

Quais os mitos do setor produtivo de plantas nativas?

  • Plantas nativas não atendem às demandas da sociobioeconomia

Sociobioeconomia representa o desenvolvimento econômico inspirado nos modos de vida dos povos indígenas, comunidades tradicionais (tanto costeiras, quanto ribeirinhas) e agricultores familiares. Além da preocupação com a conservação da biodiversidade dos territórios, esse modelo agrega valor aos produtos, processos e serviços, promovendo mercados justos ao buscar equilíbrio climático.

Há muitas plantas nativas no Brasil que oferecem um potencial extraordinário e subexplorado à sociobioeconomia, com destaque para a produção sustentável de biocombustíveis, medicamentos, enzimas e produtos químicos industriais. Dentre essas plantas, podemos citar:

  • Macaúba (Acrocomia aculeata): por ser considerada uma poderosa oleaginosa, pode produzir até dez vezes mais óleo por hectare do que a soja, sendo uma alternativa competitiva mundialmente para a produção de biodiesel.
A imagem mostra a macaúba, uma palmeira importante para o setor produtivo; resiliente e perene, que atinge até 25 metros de altura e possui o estipe (caule) espinhoso e folhas plumosas.
Macaúba (Acrocomia aculeata). Fonte: BioDiversity4All.
  • Plantas da Amazônia: Espécies como andiroba, copaíba e patauá são estudadas para a produção de biolubrificantes e biocombustíveis, com propriedades físico-químicas vantajosas e menor impacto ambiental.
  • Curauá (Ananas bracteatus): Fibra nativa com alto potencial industrial, podendo substituir plásticos e ser usada em compósitos.
A imagem mostra o fruto vermelho do curauá, uma planta bromeliácea importante para o setor produtivo, conhecida como prima do abacaxi; suas folhas produzem uma das fibras naturais mais resistentes do mundo.
Curauá (Ananas bracteatus). Fonte: BioDiversity4All.
  • Erva-baleeira (Cordia verbenacea): Utilizada no desenvolvimento de fitomedicamentos anti-inflamatórios (como o Acheflan).
A imagem mostra as flore da erva-baleeira, um arbusto nativo do Brasil, muito ramificado e aromático, com 1,5 a 2,5m de altura, importante para o setor produtivo.
Erva-baleeira (Cordia verbenacea). Fonte: Rebrotar Plantas.
  • Gênero Eugenia: Nativa (família Myrtaceae) com centenas de espécies, ricas em compostos ativos (fenólicos, terpenos) com potencial antioxidante, anticarcinogênico e antidiabético.
A imagem mostra os frutos de uma pitangueira, uma árvore de pequeno a médio porte (2 a 12m), nativo da Mata Atlântica e muito popular no Brasil, importante para o setor produtivo.
Pitangueira, exemplo de uma Eugenia.
  • O setor produtivo tradicional rejeita plantas nativas por ser arriscado, financeiramente falando

Pelo contrário, estudos indicam que projetos do setor produtivo que utilizam espécies nativas, como reflorestamento e manejo sustentável, são bastante lucrativos e oferecem retorno superior a outras atividades tradicionais, com taxas de retorno (TIR) que podem superar 28% ao ano.

O cultivo de nativas, juntamente à agricultura ou pecuária, oferece diversificação de renda, além de créditos de carbono. As plantas nativas também são mais adaptadas às condições locais, o que pode reduzir custos com manejo e defensivos agrícolas/agropecuários.

Por fim, o setor produtivo responsável pela recuperação de áreas degradadas aumenta o valor da terra e gera serviços ambientais, além de atrair fundos de investimento com foco ambiental, social e de governança, devido às práticas sustentáveis e de impacto positivo.

  • Okay, mas o mercado internacional não está nem aí com as plantas nativas!

O setor produtivo responsável pelas exportações de castanha-do-Pará somou mais de US$ 9,6 milhões, aproximadamente R$55 milhões (na época), entre os meses de janeiro a novembro de 2024, no Acre. Isso mesmo, apenas no estado do Acre! Confira aqui.

Vamos falar também do açaí? O estado do Pará é seu maior exportador: em 2023, o estado exportou 61 mil toneladas de açaí, gerando cerca de US$45 milhões, equivalente a R$233,5 milhões. Dentre os principais destinos, destacam-se os Estados Unidos liderando 58% das compras, seguidos por Austrália, Japão, Países Baixos e Israel.

Além desses frutos, o setor produtivo também é muito engajado na produção e exportação de outros frutos como cacau e caju, plantas medicinais como aroeira, andiroba e copaíba, e plantas ornamentais, como as bromélias e ipês.

  • Abrir novos viveiros vai resolver o problema do mercado de nativas

Um grande debate no setor produtivo é de que a abertura de novos viveiros florestais pode resolver os gargalos do mercado de mudas de plantas nativas. A verdade é que a dinâmica do setor produtivo envolve fatores complexos, como planejamento (previsibilidade de demanda), logística de distribuição e diversidade de espécies solicitadas.

A ausência de informações consolidadas sobre necessidades futuras, a sazonalidade das compras e as exigências técnicas específicas por região limitam a eficiência do sistema como um todo. Sem planejar de forma integrada, novos viveiros podem enfrentar dificuldades para escoar a produção, resultando em perdas econômicas e baixa sustentabilidade do empreendimento.

Nesse contexto, expandir o número de viveiros sem acompanhamento de políticas de coordenação, capacitação técnica e instrumentos de mercado, tende a reproduzir desequilíbrios já existentes. Assim, o fortalecimento do setor produtivo não depende apenas da ampliação da infraestrutura produtiva, mas da construção de arranjos institucionais que garantam previsibilidade, qualidade e viabilidade econômica ao longo da cadeia.

  • Uso de plantas nativas não contribui para produtividade agrícola

Essa informação é falsa, e contrariada por diversas pesquisas e evidências de campo, que demonstram o contrário: a integração de vegetação nativa pode aumentar significativamente a produtividade, a resiliência e a sustentabilidade das lavouras!

Assim como as plantas nativas atendem sim às demandas da sociobioeconomia, o setor produtivo agrícola não fica de fora. A restauração de áreas degradadas pela vegetação nativa próxima aos cultivos pode gerar um ganho de até R$4 bilhões anuais para o agronegócio, segundo estudos. Clique aqui e saiba mais.

  • Plantas nativas não se adaptam a sistemas produtivos modernos

Essa informação também é incorreta, pois as plantas nativas possuem alta capacidade de adaptação a sistemas produtivos modernos. No setor produtivo, elas são peças-chave para uma agricultura mais sustentável, resiliente e diversificada. Justamente por serem nativas, evoluíram submetidas a condições locais específicas, conferindo-lhes resistência a variações do clima, pragas e doenças da região, facilitando seu cultivo com menos insumos externos.

No setor produtivo, as plantas nativas são aliadas de tecnologias modernas em:

  • Sistemas Agroflorestais (SAFs): combinando o cultivo de árvores nativas com lavouras de café ou cacau, por exemplo, ou pecuária, aumentando a biodiversidade e a produtividade por área;
  • Agricultura Sintrópica: esse modelo se assemelha aos processos naturais de uma floresta, porém, sem utilizar adubos químicos, apenas espécies nativas para criar cobertura vegetal e produzir alimentos;
  • Agricultura de Precisão: sensores de umidade e outras tecnologias modernas auxiliam no monitoramento das nativas, otimizando o uso de recursos;
  • Plantio Direto: utilizar plantas nativas de cobertura na palhada (restos vegetais) protege o solo, reduz a erosão e a necessidade de máquinas, agindo positivamente para a cultura.
  • Não há mudas de nativas suficientes para o setor produtivo

Um dos mitos recorrentes no debate sobre o setor produtivo brasileiro é a ideia de que não há mudas de plantas nativas em quantidade suficiente para atender demandas produtivas, seja para a restauração de ecossistemas ou compensação ambiental.

Essa percepção tem origem, em grande parte, pela priorização histórica de espécies exóticas em sistemas produtivos, além da baixa visibilidade dos viveiros existentes que são especializados em espécies nativas.

Na verdade, o que ocorre não é a ausência de mudas nativas, mas a falta de articulação entre a demanda do setor produtivo e a oferta existente, especialmente quando são exigidas grandes quantidades em curtos prazos ou espécies específicas sem planejamento prévio.

Programas nacionais de restauração ecológica, políticas ambientais e iniciativas do próprio setor produtivo têm ampliado essa capacidade produtiva, embora persistam desafios relacionados à padronização, distribuição e contratos de longo prazo.

Dessa forma, o mito da insuficiência de mudas nativas tende a se sustentar mais pela desinformação e pela falta de integração entre os agentes do setor produtivo do que por uma limitação real da capacidade de produção.

Qual a conclusão da Nativas Brasil frente ao setor produtivo?

A Nativas Brasil e a Silva Brasil, comprometidas com a restauração florestal e o fortalecimento da cadeia de produção de mudas, se uniram para conduzir um mapeamento abrangente do setor produtivo no ramo de nativas.

Juntos, realizamos um diagnóstico dos viveiros associados à Nativas Brasil após a obtenção de apoio financeiro do Instituto Clima e Sociedade (ICS) durante o ano de 2024, no contexto do planejamento estratégico de três anos.

O mapeamento identificou padrões e tendências no setor, evidenciando tanto práticas bem-sucedidas quanto gargalos que limitam a eficiência e a expansão dos viveiros.

Entre os principais pontos observados, destacam-se a variedade na estrutura e organização dos viveiros, a falta de padronização em protocolos de produção e qualidade, dificuldades na rastreabilidade das mudas e barreiras para a comercialização. Além disso, aspectos como gestão financeira, capacitação da equipe e acesso a crédito emergiram como fatores críticos para a sustentabilidade do setor produtivo.

Os desafios enfrentados pelos viveiros não estão isolados. A ausência de crédito limita a expansão, a falta de planejamento impede o controle de custos, a baixa capacidade comercial afeta o giro, a mão de obra desqualificada reduz a eficiência, etc.

Os dados do diagnóstico mostram que os viveiros mais organizados, com apoio técnico e gestão estruturada, conseguem operar com maior diversidade e eficiência. Por isso, uma das grandes oportunidades para o setor está em ativar a capacidade ociosa dos viveiros já existentes, qualificando sua operação, fortalecendo sua estrutura de gestão e criando mecanismos de financiamento e comercialização estáveis.

Fique por dentro dos detalhes do diagnóstico da Nativas Brasil e Silva Soluções Ambientais.

Redação: Equipe de Comunicação Nativas Brasil – GreenBond Conservation.

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