Recuperação de áreas degradadas: qual o papel das espécies nativas nesse processo? 

A recuperação de áreas degradadas começa muito antes de um grande plantio: inicia-se com espécies pioneiras, as primeiras plantas a colonizar solos danificados, preparando o terreno para que a biodiversidade prospere novamente. Mas, para que esse processo funcione de forma eficaz e duradoura, há uma base essencial e muitas vezes invisível: a escolha criteriosa de sementes e mudas nativas, e o trabalho diligente dos produtores que as cultivam. Neste artigo, saiba como pode ser realizada a recuperação de áreas degradadas com espécies nativas.

O que é recuperação de áreas degradadas?

A recuperação de áreas degradadas se fundamenta na compreensão de processos dinâmicos das florestas, sobretudo à regeneração natural. Seu principal objetivo é restabelecer processos ecológicos essenciais, como a sucessão secundária, a biodiversidade e as interações entre plantas e animais, criando condições para que o ambiente volte a se estruturar de forma funcional e resiliente.

Para isso, são utilizadas árvores de espécies nativas da região. Além de serem adaptadas àquele local, são responsáveis por restaurar a cadeia alimentar, ao fornecer alimento, abrigo e locais de reprodução para a fauna local, incluindo polinizadores e dispersores de sementes, e importantes para o equilíbrio do clima e a fixação de carbono, combatendo as mudanças climáticas. Somado a isso, suas raízes ajudam na estruturação do solo, prevenindo erosão e desmoronamentos, e protegem nascentes e mananciais.

Na prática, a recuperação de áreas degradadas é um processo complexo, que exige planejamento e investimentos contínuos. Envolve tempo, recursos financeiros, mão de obra qualificada, tecnologias adequadas e conhecimento técnico sobre os diferentes fatores que caracterizam cada área, como as condições do solo, da água, da fauna e da flora. 

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O que a Constituição Federal diz sobre a recuperação de áreas degradadas?

A recuperação de áreas degradadas é respaldada na Constituição Federal de 1988, em seu artigo 225, que diz: “Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá- lo para as presentes e futuras gerações.”

§ 1º – Para assegurar a efetividade desse direito, incumbe ao Poder Público:

I – preservar e restaurar os processos ecológicos essenciais e prover o manejo ecológico das espécies e ecossistemas;

§ 2º – Aquele que explorar recursos minerais fica obrigado a recuperar o meio ambiente degradado, de acordo com solução técnica exigida pelo órgão público competente, na forma da lei.

Além da Constituição Federal, a Lei nº 6.938, de 31 de agosto de 1981, que dispõe sobre a Política Nacional do Meio Ambiente, menciona no Artigo 2º: “A Política Nacional do Meio Ambiente tem por objetivo a preservação, melhoria e recuperação da qualidade ambiental propícia à vida, visando assegurar, no País, condições ao desenvolvimento socioeconômico, aos interesses da segurança nacional e à proteção da dignidade da vida humana.”

Sendo assim, cabe ao Ministério do Meio Ambiente promover a recuperação de áreas degradadas, sobretudo utilizando espécies nativas, por meio de pesquisa e instrumentos de adequação e regularização ambiental, além de ações como a implementação de novos Centros de Referência em Recuperação de Áreas Degradadas (CRADs) nos biomas brasileiros;

Como é feita a recuperação de áreas degradadas?

  1. Plano de Recuperação de Áreas Degradadas (PRAD)

O PRAD objetiva criar um roteiro sistemático contendo as informações e especificações técnicas organizadas em etapas lógicas, para orientar a tecnologia de recuperação ambiental de áreas degradadas, sobretudo com árvores de espécies nativas, para alcançar os resultados esperados.

Somado a isso, o PRAD deve ajustar variáveis como as necessidades legais, desejo do proprietário do terreno, aspectos sociais e econômicos. Porém, nunca esquecer que o objetivo principal é promover a recuperação de áreas degradadas.

O PRAD deve considerar, além dos aspectos ambientais, as variáveis sociais e ambientais, envolvidas no processo de recuperação. Além disso, considerar a população que, originalmente, ocupava a área degradada e o entorno, incluindo seus valores e interesses, assim como a atividade econômica, que era desenvolvida na área antes da intervenção ambiental.

O PRAD é conduzido conforme objetivos discutidos com o proprietário, alinhados com o técnico responsável pelo projeto e acompanhamento. Conforme Instrução Normativa nº 4, de 13 de abril de 2011, o proprietário deve assinar também o “Termo de Compromisso de Reparação de Dano Ambiental”, que será anexado ao PRAD a ser apresentado.

Uma das etapas mais importantes a ser considerada para saber como elaborar um projeto de recuperação de áreas degradadas é o diagnóstico que permite o conhecimento da amplitude dos problemas ambientais, sociais e econômicos envolvidos no processo de recuperação de áreas degradadas e o respectivo PRAD.

Em suma, o diagnóstico prévio de aspectos ambientais e socioeconômicos permite que se estabeleçam metas para a recuperação ambiental, dando mais consistência ao PRAD e a seu processo de implementação.

  1. Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg)

O PlanaVeg trata-se de uma rota estratégica para implementar a meta de recuperar 12 milhões de hectares de vegetação nativa, entre 2025 e 2030, em todos os biomas brasileiros. O Brasil destaca-se mundialmente por sua ampla cobertura vegetal. Do total dos 6,2 milhões de km2 compreendidos pelos biomas Amazônia e Cerrado, aproximadamente 65% (4 milhões de km2) estão conservados, apresentando a classe Vegetação Natural Primária.

Desse percentual, 18% (1,1 milhão de km2) são representados por pastagens; 6% (400 mil km2) pela agricultura, incluindo cultivos temporários, semiperenes, perenes e silvicultura, e 4% (246 mil km2) por vegetação natural secundária e o restante por classes de menor expressão territorial.

Os demais biomas também possuem uma cobertura vegetal expressiva. Essa riqueza natural confere ao país o título de nação mais biodiversa do planeta, abrigando mais de 119.000 espécies de fauna e 46.000 espécies de flora, distribuídas pelos seis biomas terrestres e três grandes ecossistemas marinhos.

Enfrentar o desmatamento, garantir a conservação e proteção das áreas de vegetação nativa primárias e secundárias do país, recuperar a vegetação pioneira e nativa e áreas degradadas tanto em territórios públicos quanto privados, e, ao mesmo tempo, produzir alimentos e movimentar a economia agrícola do nosso país são ações compatíveis e que se retroalimentam.

Somado a isso, o PlanaVeg visa promover ações com abordagens que combinam diferentes dimensões:

  • O uso adequado das terras, com boas práticas de gestão e aumento de produtividade;
  • Desenvolvimento de alternativas econômicas e instrumentos legais que beneficiam Povos Indígenas, Povos e Comunidades Tradicionais e Agricultores Familiares (PIQPCTAF);
  • Integração de ações que gerem conservação de Espécies da Flora e Fauna, como a recuperação de áreas degradadas em unidades de conservação;
  • A sensibilização, o engajamento e a participação ativa da população, produtores rurais, PIQPCTAF e cidadãos, cidadãs em geral;
  • A integração de políticas públicas de diferentes setores do governo e da sociedade;
  • Apoio à ciência e pesquisa.

Exemplos de espécies pioneiras nativas a serem utilizadas na recuperação de áreas degradadas

Espécies pioneiras são aquelas adaptadas a sobreviver em ambientes estressados ou degradados, iniciando o processo natural de regeneração. Na restauração ecológica, essas espécies funcionam como verdadeiras “engenheiras” do ecossistema, abrindo caminho para que a diversidade vegetal e animal retorne de forma mais equilibrada.

Dentre as espécies pioneiras nativas do Brasil mais importantes a serem utilizadas na recuperação de áreas degradadas, temos:

Guaçatonga (Casearia sylvestris)

Guaçatonga (ou guaçatunga), é uma planta nativa de quase todo do Brasil. Também é chamada de cafezeiro-do-mato. A guaçatonga é uma planta pioneira rústica e produtora de grande quantidade de sementes, sendo bastante comum em beira de estradas e ao longo de cercas de arame farpado. Algumas pesquisas e a utilização popular apontam a planta como medicinal, possuindo propriedades antiulcerogênicas, anti-inflamatórias, antiofídicas e antitumorais.

Fonte: INaturalist. Texto alternativo: Esta é uma imagem de uma Guaçatonga,  mostrando suas folhas de cor verde e seus pequenos frutos numa colocação vermelho-amarronzado.

Canela-guaicá (Ocotea puberula)

Conhecida como canela-guaicá, esta planta ocorre desde o Nordeste do Brasil até o Rio Grande do Sul (além do Paraguai e Argentina), mas é encontrada, principalmente, em florestas com Araucárias. É uma árvore perenifólia de porte grande de 10m a 25m e tronco de 40-60 cm de diâmetro. São geralmente exploradas em florestas de Misiones, na Argentina devido ao valor de sua madeira.

Fonte: BioDiversity4All. Texto alternativo: Esta é uma imagem de uma canela-guaicá, exemplo de espécie nativa brasileira que pode ser utilizada na recuperação de áreas degradadas, mostrando suas folhas verdes e os frutos de cor verde, com pedúnculos avermelhados.

Aroeira (Schinus terebinthifolius)

Esta é a conhecida aroeira, uma planta utilizada na fitoterapia pelas suas propriedades anti-inflamatórias, antimicrobianas e cicatrizantes. A aroeira é nativa da Argentina, Paraguai e Brasil, ocorrendo em todo território, tanto em área antrópica, quanto floresta ciliar, floresta estacional semidecidual, floresta ombrófila, manguezal e restinga. Em seu habitat nativo é uma flor melífera, sendo a principal fonte de alimento à abelha sem ferrão Tetragonisca angustula, importante produtora de mel na América Central e do Sul.

Fonte: INaturalist. Texto alternativo: Esta é uma imagem de uma aroeira, exemplo de espécie nativa brasileira que pode ser utilizada na recuperação de áreas degradadas, mostrando suas folhas verdes e seus pequenos frutos secos de coloração avermelhada

Ipê-branco-do-brejo (Tabebuia insignis)

Conhecida popularmente como ipê-branco-do-brejo, esta árvore se caracterizada por suas flores brancas, em formato de trombeta, e ocorre em áreas montanhosas do Cerrado e Caatinga, sendo ornamental e medicinal;

Fonte: FieldMuseum. Texto alternativo: a imagem mostra a flor branca, em formato de trombeta, de um ipê-branco-do-brejo, exemplo de espécie nativa brasileira que pode ser utilizada na recuperação de áreas degradadas.

Monjoleiro (Senegalia polyphylla)

Este é o monjoleiro, também conhecido como angico ou espinheiro. É comumente encontrado como espécie colonizadora em áreas rochosas e em encostas de morros, formando populações agregadas;

Foto: Wikipedia. Texto alternativo: esta é uma imagem de Monjoleiro, exemplo de espécie nativa brasileira que pode ser utilizada na recuperação de áreas degradadas. A imagem mostra as flores desta árvore, assim como os espinhos no caule.

Bacaratinga (Mimosa scabrella)

Conhecida como bracatinga, é uma árvore nativa da Mata Atlântica brasileira. Possui crescimento  rápido, valiosa para a recuperação de solos degradados, produção de madeira de alta qualidade, e como fonte para apicultura;

Fonte: INaturalist. Texto alternativo: a imagem mostra a árvore bracatinga, exemplo de espécie nativa brasileira que pode ser utilizada na recuperação de áreas degradadas, em período de floração, com pequenas flores amarelas mas que, em grande quantidade, se tornam exuberantes.

Pindaíba (Xylopia aromatica)

Pindaíba, pachinhos ou pimenta-de-macaco, esta árvore apresenta ampla dispersão no cerrado. É utilizada pelos povos tradicionais como um antisséptico no tratamento de hemorragias e úlceras. A nível de curiosidade, estas plantas possuem parentesco mais próximo com a gravioleira

Fonte: Wikipedia. Texto alternativo: a imagem mostra a flor branca e exuberante de uma pindaíba, exemplo de espécie nativa brasileira que pode ser utilizada na recuperação de áreas degradadas.

Como a Nativas Brasil atua na recuperação de áreas degradadas?

A Nativas Brasil vem atuando para organizar e fortalecer o setor produtivo de espécies nativas brasileiras, ampliando a oferta de espécies de alta qualidade e grande diversidade, promovendo o diálogo e dando voz às necessidades e demandas dos produtores nos fóruns de representação existentes.

Articulando com a iniciativa privada, tanto nacional quanto internacional, a Nativas Brasil defende os interesses dos produtores, fomentando políticas públicas e ações que valorizam as florestas brasileiras.

Nosso compromisso une a recuperação de áreas degradadas por meio do uso de espécies nativas, tanto em projetos de cunho ecológico, econômico ou híbrido, com o objetivo de recuperar ecossistemas, resgatar a riqueza natural do território brasileiro e restaurar paisagens.

Atuamos de forma colaborativa, com a aliança de diversas equipes que compõem a Nativas para que, além de restaurar florestas, também possamos restaurar conexões entre pessoas, territórios e sonhos compartilhados. Clique e conheça mais sobre nosso trabalho.

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Redação: Equipe de Comunicação Nativas Brasil – GreenBond Conservation

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