Plantas medicinais nativas do Brasil: conheça 5 espécies estudadas

O Brasil abriga mais de 50 mil espécies vegetais, e parte delas integra práticas tradicionais de cuidado à saúde há séculos. Cinco dessas plantas medicinais nativas — erva-baleeira, barbatimão, pata-de-vaca, aroeira-vermelha e andiroba — já foram investigadas pela ciência, que identificou compostos bioativos e avaliou possíveis atividades biológicas em estudos experimentais. Conhecer esses resultados, sem confundir evidência experimental com comprovação clínica, é o ponto de partida para um uso responsável.

O que são plantas medicinais?

Plantas medicinais são espécies vegetais que possuem substâncias capazes de produzir efeitos biológicos e que são utilizadas tradicionalmente ou estudadas por seu potencial relacionado à saúde. Seu uso acompanha diferentes sociedades há séculos e geralmente está associado a conhecimentos construídos e transmitidos entre gerações. No Brasil, essa relação também está diretamente ligada à grande diversidade de plantas nativas e aos conhecimentos de povos indígenas e comunidades tradicionais sobre seus usos.

Mas, o fato de uma espécie ser utilizada como planta medicinal não significa que todos os seus efeitos estejam cientificamente comprovados. O conhecimento tradicional pode indicar usos que posteriormente são investigados pela ciência, enquanto estudos fitoquímicos, experimentais e clínicos podem ajudar a compreender quais substâncias estão presentes na planta, como elas atuam e quais são seus possíveis benefícios e riscos.

Por isso, é importante diferenciar o uso tradicional de uma planta da existência de evidências científicas que sustentem uma determinada finalidade. Os efeitos de uma planta medicinal também variam conforme a espécie, a parte utilizada, a concentração de seus compostos e a forma de preparo.

Folhas, raízes, cascas, sementes, frutos e outras estruturas vegetais podem apresentar composições químicas diferentes. Assim, identificar corretamente a espécie e conhecer a forma adequada de utilização são aspectos fundamentais para que o uso das plantas medicinais seja responsável.

No caso das plantas medicinais nativas brasileiras, essa discussão ganha ainda mais importância. A biodiversidade do país reúne espécies associadas a diferentes práticas tradicionais e que despertam o interesse pela pesquisa científica. Conhecer esse potencial, sem transformar usos populares em promessas terapêuticas, permite valorizar tanto os conhecimentos construídos ao longo do tempo quanto a produção de evidências sobre essas espécies.

Para que servem as plantas medicinais? Mitos e verdades entre conhecimento popular e evidência científica

As plantas medicinais podem ser utilizadas tradicionalmente para diferentes finalidades relacionadas à saúde, desde o alívio de sintomas até o tratamento ou manejo de determinadas condições. Por isso, o conhecimento tradicional e a pesquisa científica podem se complementar, mas não devem ser tratados como equivalentes.

Esse cuidado é particularmente importante quando se fala em plantas nativas brasileiras. Uma revisão publicada no periódico Experimental Parasitology (2021) sobre espécies nativas tradicionalmente utilizadas no Brasil para problemas relacionados a helmintos identificou 133 espécies distribuídas pelos seis biomas brasileiros e encontrou evidências experimentais de atividade antiparasitária para diversas delas.

Os próprios autores, porém, destacaram que ainda faltam investigações farmacológicas capazes de confirmar o uso terapêutico de muitas dessas espécies. Outro levantamento publicado na Chemistry and biodiversity sobre plantas medicinais nativas utilizadas tradicionalmente para problemas hepatobiliares também encontrou espécies com evidências científicas que apoiam alguns usos, mas ressalta a necessidade de ampliar a investigação.

É justamente nessa diferença entre tradição, potencial biológico e comprovação científica que surgem muitos mitos sobre as plantas medicinais.

“Se uma planta é natural, ela não faz mal.” – MITO.

Ser natural não significa ser automaticamente seguro. Plantas medicinais podem conter substâncias biologicamente ativas capazes de provocar efeitos adversos, toxicidade, reações alérgicas e interações com medicamentos.

“Toda planta medicinal tem eficácia comprovada pela ciência.” – MITO.

O uso tradicional de uma planta medicinal pode ser uma importante fonte de conhecimento e até orientar pesquisas científicas, mas não equivale à comprovação de eficácia clínica. Os estudos podem estar em diferentes etapas: identificação dos compostos, testes químicos, experimentos em células, estudos em animais e, em alguns casos, ensaios clínicos em seres humanos.

“O uso tradicional das plantas medicinais não tem valor para a ciência.” – MITO.

O conhecimento tradicional pode contribuir para a identificação de espécies e usos que merecem investigação científica. A etnofarmacologia utiliza informações provenientes de sistemas tradicionais de saúde como uma das fontes para a pesquisa de substâncias bioativas e para a descoberta de possíveis candidatos a novos medicamentos.

No Brasil, revisões etnobotânicas mostram a riqueza desse conhecimento entre diferentes populações e regiões. Uma revisão sobre comunidades quilombolas, por exemplo, identificou 297 espécies medicinais utilizadas por essas comunidades, enquanto estudos sobre plantas medicinais indígenas utilizadas em comunidades tradicionais da Amazônia brasileira também demonstram a ampla utilização de recursos naturais no cuidado à saúde.

“Se uma planta medicinal faz bem, quanto maior a quantidade utilizada, melhor será o efeito.” – MITO.

A quantidade de uma preparação vegetal influencia a exposição do organismo às suas substâncias bioativas, mas aumentar a dose não significa necessariamente aumentar os benefícios. Pelo contrário: determinadas substâncias podem apresentar efeitos tóxicos em concentrações elevadas.

Estudos de toxicologia de plantas medicinais demonstram que a avaliação de doses seguras é uma etapa essencial para a utilização terapêutica desses recursos. Uma revisão sistemática que analisou esses estudos em animais encontrou grande variação nas doses associadas à ausência de efeitos adversos, reforçando que não existe uma regra geral de que uma quantidade maior seja necessariamente melhor ou mais segura.

“O chá é sempre a forma mais segura de utilizar uma planta medicinal.” – MITO.

Chás, infusões e decocções são formas tradicionais de preparação de plantas medicinais, mas não podem ser considerados automaticamente mais seguros em qualquer situação. O processo de preparo influencia quais substâncias presentes no vegetal são extraídas e em que concentração.

Revisões sobre a preparação e extração de plantas medicinais mostram que diferentes métodos podem produzir extratos com perfis químicos distintos. Temperatura, tempo, solvente e método de extração influenciam a quantidade e a natureza dos compostos obtidos.

“É possível confundir uma planta medicinal com outra espécie.” – VERDADE.

A identificação correta é uma das etapas fundamentais para o uso responsável das plantas medicinais. Nomes populares podem variar entre regiões e ser utilizados para espécies diferentes, enquanto espécies distintas podem apresentar aparência semelhante.

A literatura científica registra a identificação incorreta de plantas como uma das possíveis causas de intoxicações. Uma revisão sobre o uso de ferramentas de identificação de espécies destaca que a confusão entre plantas pode levar à ingestão de espécies tóxicas e que a identificação taxonômica precisa é fundamental para prevenir esses casos. Por isso, conhecer o nome científico da planta é particularmente importante quando se pretende discutir propriedades medicinais.

“As plantas medicinais podem substituir qualquer tratamento convencional.” – MITO.

A existência de propriedades medicinais em uma planta não significa que ela possa substituir qualquer tratamento médico. Além da diferença entre evidência experimental e evidência clínica, algumas plantas podem interagir com medicamentos utilizados convencionalmente.

Estudos identificaram interações entre diferentes produtos vegetais e medicamentos, incluindo alterações na absorção, metabolismo ou concentração de determinados fármacos. Embora a intensidade e a relevância clínica dessas interações variem conforme a planta e o medicamento, o fenômeno está documentado na literatura científica.

Por isso, pessoas que utilizam medicamentos de forma contínua devem informar ao profissional de saúde sobre o uso de plantas medicinais ou produtos derivados delas, especialmente quando não há informações suficientes sobre possíveis interações.

“Conservar as plantas nativas também é importante para preservar conhecimentos e possibilidades medicinais.” – VERDADE.

A conservação das plantas nativas está relacionada não apenas à proteção das espécies e dos ecossistemas, mas também à manutenção dos conhecimentos associados à biodiversidade. No Brasil, diferentes estudos mostram que comunidades tradicionais utilizam uma grande diversidade de espécies medicinais e que esses conhecimentos podem contribuir para a identificação de plantas com potencial farmacológico.

Plantas medicinais brasileiras: conheça 5 espécies nativas estudadas pela ciência

O Brasil abriga uma das maiores diversidades vegetais do planeta, e muitas de suas espécies nativas fazem parte de práticas tradicionais de cuidado em diferentes regiões. Algumas dessas plantas medicinais brasileiras também passaram a ser investigadas pela ciência, que busca identificar seus compostos, compreender seus mecanismos de ação e avaliar possíveis atividades biológicas.

Erva-baleeira (Cordia verbenacea)

Fonte: Santiago Mailhos / iNaturalist / G1.

Tradicionalmente utilizada como planta medicinal, a erva-baleeira é associada principalmente ao uso contra processos inflamatórios e dores. Suas folhas são empregadas na medicina popular, e a espécie também é conhecida por seu conteúdo de compostos presentes no óleo essencial. A planta é nativa da Mata Atlântica, comum nas regiões de restinga e de litoral.

Um estudo publicado na Bioresource Technology avaliou extratos da erva-baleeira obtidos por diferentes métodos de extração e investigou sua composição química e atividade antibacteriana. Os pesquisadores identificaram compostos como artemetina, β-sitosterol, α-humuleno e β-cariofileno. Os extratos apresentaram maior atividade inibitória contra bactérias Gram-positivas, incluindo Staphylococcus aureus e Bacillus cereus.

Barbatimão (Stryphnodendron adstringens)

Fonte: Natureza Bela.

O barbatimão é uma espécie nativa do Cerrado, conhecida pelo uso tradicional de sua casca, especialmente em preparações associadas a problemas de pele e cicatrização. A planta apresenta elevada concentração de compostos fenólicos, incluindo taninos, que estão entre as substâncias investigadas em estudos sobre suas propriedades biológicas.

Um estudo publicado na revista Toxicon investigou o potencial do extrato de Stryphnodendron adstringens para neutralizar diferentes efeitos tóxicos do veneno de jararacuçu (Bothrops jararacussu), uma espécie de serpente brasileira.

O resultado é cientificamente relevante para a investigação de moléculas de origem vegetal com potencial antiveneno, mas não significa que o barbatimão possa substituir o soro antiofídico no tratamento de picadas de serpente. Em síntese: extratos de Stryphnodendron adstringens inibiram atividades tóxicas do veneno de Bothrops jararacussu em testes in vitro e em modelos animais, sem equivalência clínica estabelecida.

Pata-de-vaca (Bauhinia forficata)

Fonte: Wikipedia.

A pata-de-vaca é uma planta medicinal presente na Mata Atlântica. Suas folhas são utilizadas na medicina popular brasileira, principalmente em preparações relacionadas ao diabetes e a problemas cardiovasculares. Esse uso tradicional despertou o interesse de diferentes grupos de pesquisa, que investigam seus efeitos metabólicos e vasculares.

No estudo publicado no Journal of Ethnopharmacology, pesquisadores avaliaram preparações das folhas de Bauhinia forficata e seus principais compostos, incluindo kaempferitrina e kaempferol, em anéis de aorta de ratos normotensos e hipertensos. Os resultados demonstraram vasorrelaxamento dependente e independente do endotélio, indicando atividade sobre a musculatura dos vasos sanguíneos nos modelos experimentais utilizados.

A espécie também vem sendo investigada em relação ao metabolismo da glicose, inclusive em estudos clínicos e revisões mais recentes. Ainda assim, os resultados precisam ser interpretados considerando o tipo de preparação utilizada, a dose e as características dos participantes, sem transformar a planta em substituta dos tratamentos convencionais.

Aroeira-vermelha (Schinus terebinthifolia)

Fonte: Wikipedia.

A aroeira-vermelha é uma espécie nativa brasileira, presente principalmente na Mata Atlântica, Cerrado, Caatinga e o Pampa, e é amplamente conhecida pelo uso tradicional de diferentes partes da planta. Levantamentos etnobotânicos registram aplicações envolvendo inflamação, cicatrização, problemas gastrointestinais e outras condições, mostrando a diversidade de conhecimentos associados à espécie em diferentes regiões do país.

Um estudo publicado em Comparative Biochemistry and Physiology avaliou a qualidade microbiológica, o perfil químico e as atividades antioxidante e antidiabética de extratos de raízes, casca do caule e folhas de Schinus terebinthifolia. Os pesquisadores identificaram compostos fenólicos, flavonoides e galotaninos, e observaram atividade antioxidante e inibição da enzima α-glicosidase, além de atividade antiglicação em testes laboratoriais.

No mesmo trabalho, o extrato metanólico das folhas foi avaliado em camundongos. Os resultados indicam potencial antioxidante e antidiabético em modelos experimentais. Porém, o fato de diferentes partes da planta apresentarem composições químicas distintas reforça a necessidade de especificar qual material vegetal foi estudado antes de atribuir uma propriedade medicinal à espécie como um todo.

Andiroba (Carapa guianensis)

Fonte: iNaturalist.

A andiroba é uma árvore nativa da região amazônica e uma das plantas medicinais brasileiras mais associadas ao uso tradicional de óleos e preparações destinadas à pele. O óleo das sementes é empregado tradicionalmente em diferentes contextos, enquanto folhas e outras partes da árvore também aparecem em práticas medicinais.

Um estudo publicado em Evidence-Based Complementary and Alternative Medicine avaliou o extrato etanólico das folhas de Carapa guianensis em três modelos experimentais de cicatrização em ratos: feridas por excisão, incisão e espaço morto. No modelo de excisão, os animais tratados topicamente com o extrato apresentaram redução da área da ferida e diminuição do período de epitelização em comparação com os controles. Também foram avaliados parâmetros como resistência da pele, formação de tecido de granulação e conteúdo de hidroxiprolina.

O estudo fornece evidências experimentais de que o extrato das folhas apresenta potencial relacionado à cicatrização, mas os resultados foram obtidos em ratos e com um extrato preparado em condições específicas. A espécie também apresenta uma composição química rica em limonoides, grupo de compostos ao qual diferentes atividades biológicas têm sido atribuídas em estudos experimentais.

Cuidados no consumo e preparo de plantas medicinais

O uso de plantas medicinais exige cuidado desde a identificação da espécie até o preparo e consumo. Nomes populares podem se referir a plantas diferentes, e a parte utilizada, a quantidade, a forma de preparo e as condições de armazenamento podem influenciar seus efeitos.

Por isso, não é recomendado consumir uma planta nativa sem ter certeza de sua identificação ou aumentar a quantidade acreditando que isso potencializará seus benefícios. Pessoas que utilizam medicamentos, gestantes, crianças, idosos e indivíduos com condições de saúde específicas também devem buscar orientação profissional antes de utilizar as preparações medicinais.

Valorizar as plantas medicinais brasileiras também significa contribuir para a conservação das espécies que fazem parte dessa biodiversidade. O uso responsável começa com informação, passa pelo respeito aos conhecimentos tradicionais e à ciência e termina com a preservação da natureza que torna esses recursos possíveis.

Quer fazer parte dessa transformação? Produtores, profissionais e pessoas que acreditam na valorização das espécies nativas fortalecem uma rede comprometida com a conservação da biodiversidade, a produção responsável e a construção de novos caminhos para as plantas nativas brasileiras.

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Redação: Equipe de Comunicação Nativas Brasil – GreenBond Conservation

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