O recorde histórico no registro de defensivos biológicos no Brasil sinaliza a ampliação de alternativas eficazes ao controle químico convencional, com potencial para reduzir riscos de resistência, dependência de insumos sintéticos e otimizar custo/benefício das produções. Ao longo deste texto, exploramos o que está por trás desse crescimento, como esses produtos funcionam e de que forma podem contribuir para sistemas produtivos mais alinhados à conservação de espécies nativas e à sustentabilidade econômica e ambiental. Confira até o final!

Joaninha predando pulgões, um dos defensivos biológicos utilizados por produtores. | Foto: Jederson Schwanz
Panorama dos registros de defensivos no Brasil em 2025
O Brasil registrou, em 2025, um novo recorde no número de produtos autorizados para uso agrícola, segundo balanço do Ministério da Agricultura e Pecuária. Ao longo do ano, foram concedidos 912 registros, englobando agrotóxicos químicos, produtos técnicos e defensivos biológicos.
Dentro desse total, chama a atenção o crescimento expressivo dos registros de defensivos biológicos, também conhecidos como bioinsumos, que somaram 162 novos registros, o maior número já autorizado no país em uma única série anual. Esse avanço indica uma tendência relevante no cenário agrícola nacional, associada ao fortalecimento de alternativas baseadas em produtos naturais e biológicos para o manejo de pragas e doenças.
Esse movimento ocorre em um contexto de crescente demanda por sistemas produtivos mais sustentáveis, capazes de conciliar eficiência na produção, conservação ambiental e manutenção dos serviços ecossistêmicos. Compreender esse panorama é fundamental para qualificar o debate sobre práticas agrícolas alinhadas à proteção da biodiversidade e da flora nativa brasileira.
O que os registros de defensivos biológicos representam na prática
Os dados de 2025 evidenciam um avanço consistente na autorização de defensivos biológicos no Brasil, que somaram 162 novos registros, consolidando um crescimento superior a 50% em relação aos anos anteriores. Esse movimento reflete não apenas o aumento da oferta de bioinsumos no mercado, mas também avanços científicos, maior interesse do setor produtivo e o fortalecimento de tecnologias baseada em processos naturais.

Fonte: Coordenação-Geral de Agrotóxicos e Afins (CGAA) do Ministério da Agricultura.
É importante destacar que o registro regulatório não corresponde, necessariamente, à adoção imediata ou uso em larga escala no campo. O processo de registro representa a autorização legal para comercialização e aplicação, cabendo aos produtores e responsáveis técnicos a avaliação da viabilidade técnica, econômica e ambiental para sua aplicação em diferentes sistemas produtivos.
No Brasil, esse processo é conduzido de forma integrada por três órgãos federais: Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Essa atuação conjunta confere maior robustez e confiabilidade aos registros, uma vez que os produtos somente são autorizados após comprovação de eficácia mínima de 70%, além de avaliações toxicológicas e ambientais.
Defensivos biológicos: conceito e fatores de crescimento

Foto: Sandra Meertins | Getty Images
O que são defensivos biológicos?
Defensivos biológicos são produtos formulados a partir de organismos vivos ou substâncias naturais, como bactérias, fungos, vírus, insetos benéficos, extratos vegetais e compostos bioquímicos, além de organismos predadores, como as joaninhas.
Seu uso está frequentemente associado a estratégias de Manejo Integrado de Pragas e Doenças (MIP/MID), que combinam diferentes métodos de controle, com base em critérios técnicos, econômicos e ambientais. Ele é uma abordagem estratégica que busca equilibrar produtividade, viabilidade econômica e conservação ambiental por meio da combinação planejada de diferentes métodos de controle.
Em vez de depender exclusivamente de produtos químicos ou biológicos, o MIP/MID parte do monitoramento contínuo, da identificação correta das pragas e patógenos e da definição de níveis de dano econômico para orientar a tomada de decisão.
A partir desse diagnóstico, são integradas práticas preventivas e corretivas, como o uso de variedades mais resistentes, o manejo adequado do solo e da fertilidade, o controle cultural e mecânico, o controle químico de forma criteriosa e, de maneira crescente, o uso de defensivos biológicos. Essa integração permite reduzir riscos de resistência, minimizar impactos sobre organismos não alvo (como polinizadores e inimigos naturais) e tornar os sistemas produtivos mais resilientes ao longo do tempo.
No contexto brasileiro, o MIP/MID ganha ainda mais relevância ao dialogar com sistemas agroecológicos, orgânicos e com iniciativas de restauração ecológica, oferecendo um caminho técnico consistente para a redução do uso indiscriminado de agrotóxicos, sem comprometer a eficiência produtiva, e alinhando-se aos princípios de sustentabilidade destacados ao longo deste debate
Condições que favorecem o uso de defensivos biológicos
O avanço dos defensivos biológicos está associado à existência de contextos produtivos nos quais esse tipo de solução apresenta maior aderência técnica. Sistemas orgânicos, agroecológicos e de base sustentável, por exemplo, tendem a demandar ferramentas de manejo mais seletivas e compatíveis com processos naturais.
Além disso, a busca por práticas agrícolas mais alinhadas à conservação ambiental, especialmente diante do cenário climático atual, tem ampliado o interesse por produtos com menor potencial de impacto sobre organismos não alvo, como microrganismos benéficos do solo e recursos hídricos.
Defensivos biológicos e práticas agrícolas sustentáveis

A ampliação da oferta de defensivos biológicos no mercado brasileiro pode representar uma oportunidade estratégica para práticas agrícolas mais sustentáveis, especialmente quando associadas a manejos que valorizam processos ecológicos e a funcionalidade do solo. Nesse contexto, essas tecnologias tem se mostrado não apenas para a produção agrícola, mas também para iniciativas de recuperação de áreas degradadas.
Pesquisas desenvolvidas pela Embrapa Agroecologia demonstram esse potencial. Um estudo conduzido com aproximadamente 800 estirpes de rizóbios (bactérias do solo) evidenciou a capacidade desses microrganismos de estabelecer simbiose com 31 espécies florestais, incluindo um número significativo de leguminosas nativas e de valor comercial. Resultados como esse impulsionam o desenvolvimento de inoculantes multiespécies (produtos biológicos que combinam diferentes microrganismos benéficos, como por exemplo bactérias e fungos) , voltados a ações de restauração e reabilitação ambiental nos diferentes biomas brasileiros.
Os avanços tecnológicos nesse cenário contribuem diretamente para o menor impacto sobre polinizadores, menor resistência à pragas, contribuindo para a qualidade do solo e da água; e maior potencial de integração com sistemas agroflorestais e produtivos que utilizam espécies nativas.
Essas características indicam que os defensivos biológicos podem atuar como ferramenta complementar em estratégias de produção que buscam reduzir impactos ambientais sem comprometer a produtividade.
Interfaces com a conservação da flora nativa
O recorde histórico dos registros de defensivos biológicos em 2025, sinaliza uma transformação gradual nos avanços científicos e tecnológicos da produção agrícola, com maior espaço para soluções que dialogam com processos naturais, a valorização das espécies nativas e o fortalecimento do setor produtivo de mudas e sementes.
Para a Nativas Brasil, o debate sobre o controle biológico está diretamente associado à conservação da flora nativa brasileira, à restauração ecológica e ao fortalecimento da cadeia de sementes e mudas nativas. O avanço de modelos produtivos mais sustentáveis reforça a necessidade de atenção aos impactos negativos do uso indiscriminado de pesticidas e defensivos químicos, especialmente sobre os ecossistemas e a saúde ambiental.
Nesse contexto, o Dia do Controle da Poluição por Agrotóxicos, instituído pelo Decreto Federal nº 98.816, de 11 de janeiro de 1990, tem como objetivo orientar e conscientizar a sociedade sobre os efeitos dessas substâncias químicas no meio ambiente e na qualidade de vida. A data está alinhada ao Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 12, da Agenda 2023 das Organizações das Nações Unidas, que propõe assegurar padrões de produção e de consumo mais sustentáveis, reafirmando a importância de práticas responsáveis e comprometidas com a conservação ambiental.
A Nativas Brasil reafirma seu compromisso com o incentivo e o apoio a inovações científicas, que contribuam para o fortalecimento da rede de produtores de sementes e mudas nativas, valorizando as espécies brasileiras e promovendo práticas agrícolas mais responsáveis. Acreditamos que o diálogo entre ciência, produção e conservação é essencial para a construção de sistemas produtivos sustentáveis e resilientes a longo prazo.
Redação: Equipe de Comunicação Nativas Brasil – Greenbond Conservation


